No anfiteatro circular do liceu de ciências naturais o sol vespertino escorre solene por dentre as valetas da clarabóia. Iluminando em cascata os alvéolos da cúpula decorados com fantásticas formas animais e as concêntricas arquibancadas de mármore, para enfim refletir nas vísceras expostas do diminuto cadáver que repousa recém-retalhado sobre uma imponente tabula na depressão central, os dardejos solares acabam por encontrar seu receptáculo ideal na alva penugem dum eloqüente bigode, que oscilante, faz-se o centro das atenções. Trata-se da distinção cosmética maior do então grão-mestre e titular da cadeira de Anatomia Comparada e cavaleiro ungido da Ordem de São Domingos, senhor Lemmuel Menard, que inclinado sobre seu objeto de estudo dá início, com um pigarro, à uma nova lição para os alunos circundantes.
Estes, finamente trajados em opulentos fraques de reluzente negrume que se interpõe à simplicidade das vestes castanhas do mestre senão pela amplitude da gola de babados –esta requerendo antes prestígio que pujança financeira para se ostentar, alinham-se às costas e flancos do recurvado tutor diante da pétrea mesa de operações. Percorrem com o olhar primeiro os longos fios da distinta pelagem facial professoral, seguindo a narinas finamente desenhadas que são sucedidas pelos aros reluzentes de um pequeno par de lentes, chegando por fim à afilada ponta do nariz que parece guiar ao desejado foco: um emaranhado colorido e odoroso de vesículas, bolsas e tubos gástricos, pontilhado aqui e lá por manchas sanguíneas.
Ao cessar um tanto tardio do murmurar de leviandades, o professor, não sem um sutil destôo de sobrancelhas em protesto, põe-se a desferir ágeis movimentos com um alongado utensílio enquanto profere:
“Observem esta incisão meus jovens físicos, como os senhores podem constatar, gnomos não dispõe de fígado. É mera ficção a infectar nossos sofistas."
A declaração quiçá bombástica, feita não sem um contido viés de soberba, quebra muitas expressões de tédio aristocrático, faz elevar afobadas incontáveis mãos e afunda a sala num revigorado mar de murmúrios. O já orgulhoso Sr. Menard, absorto em contemplativa degustação de sua constatação, volta a si quando uma mão pousa-lhe nos ombros. Não reconhece o ousado aluno inquisidor:
“Diga jovem.”
“Senhor professor, mas não é este o órgão que lhes seria robustecido para o processo de minerais? Como o fazem então?”
“Associar ao fígado inexistente esta qualidade lendária foi meramente um meio de perpetuar sua possibilidade meu jovem, até onde sei o mundo mineral e o animal não se conjugam em relações alimentares. A não ser que o senhor acredite na salamandra empalhada do seu tutor de Herpetologia.”
Mesmo o elegante insulto à taxidermia de outro prestigioso professor permanece inaudito ante o caos conjetural instaurado, e logo ouvem-se novas perguntas: “e o álcool? Como bebem?”, “aqueles gorrinhos cônicos existem mesmo?”, “porque ele é tão pequenino!?” cuja imbecilidade é perdoada com a privação de respostas, ainda que gradualmente saturando a paciência já parcimoniosa do senhor Menard. E da progressiva ruína dispersiva imposta à força de tumultos irrompe uma indagação que faz silenciar as demais vozes como nenhum gesto do grão-mestre conseguiria:
“E quanto a estes vasos rompidos no pericárdio professor?”
Por milímetros o bisturi não extirpa ao inerte gnomo um rim.
“Tratam-se de nódulos vestigiais, Senhor Errol”, profere o Sr. Menard, mirando o único rosto jocoso da multidão enquanto afasta as mãos trêmulas do cadáver de modo a poupar-lhe uma segunda investida involuntária.
Sondando célere e sutil o apoio da multidão, Errol Flint prossegue em sua inquisição com um sorriso:
“Eleve um pouco o expansor meu bom professor, ali, ateste para o ponto enegrecido.”
Anômalos lampejos iluminam a visagem de Lemmuel Menard, fixa em seu algoz. Dilata-se o fluir temporal nas pausas de inseguros respirares. O bisturi eleva-se no ar com a ferocidade de um sabre e o negro arco de alunos afasta-se em pisadelas ecoantes no assoalho marfim. Acuado, o exausto corpo verga-se para emular heroísmo enquanto ascende à mesa de operações, e evitando maiores danos ao gnomo, brade convicto “Jamais me pegareis com vida!” já rumando para uma sombria alcova. Reina exclusivo o roçar aveludado de robes e o ressoar de passadas a distância até o cessar da perplexidade.
Após uma flexão e um dedilhar preciso nas entranhas do defunto outro dos alunos conclui:
“Te enganaste, Errol, era mesmo um nódulo, veja, nem colorido há.”
“Pobre professor, então era um heresiarca por certo.”
Alguém ainda arrisca “Eram boas suas bulas, ainda assim”, e indiferente Errol emenda “Desculpem-me então pessoal, engano meu. Desperdicei outro gnomo!”, e em meio à gargalhadas que sobem pela abóbada do anfiteatro ainda lembra-se de pedir à um de seu séqüito de bajuladores que chamasse uma camareira para dar conta do corpo antes que aguçasse seu odor, afinal não haveria mais aula hoje.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
domingo, 16 de dezembro de 2007
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Um êmbolo a condenar-me... Espátulas, formões, pregos e roldanas conjugadas, tudo oculto sobre camadas de tecido pele e carisma, mesmo o mosquete repousava incólume sob o as quilhas do assoalho. Aporta o oficial imperial, pilhas de suborno nos bolsos, litros de cerveja nas bexigas de seu séqüito. No ato da despedida, sorrisos, enganos mútuos e voluntários, quiçá fortuitos. Botas militares ressoariam pela última vez no piso do novo cartório. E eis que a derradeira passada estilhaça antes de estremecer.
Honra em jogo, aquela pífia a restar nas redobras da casaca de sargento, maldito filete de dignidade: floretes saíram de todas fendas de mobília, sabres reluziram em bainhas folheadas a ouro. Sangue coloriu pela primeira vez a casa de oficio. Mas então já me encontrava sobre a chaminé vizinha, mirando a bolsa do quitandeiro.
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Seu retumbante olá preparara o recinto, e seguido por tal sonoro arauto adentrou vitorioso à casa familiar. A avó proferiu pouco mais de murmúrios em resposta, garfeando soturna um mosaico de legumes. Os demais sequer o fitaram. Mas prosseguiu inabalado, e após contemplativa pausa diante da mesa de jantar acabou por conferir ao pote de farofa todo poder de seus comprimentos, num vigoroso elevar do polegar.
Rumando ao quarto percebeu que aquilo só fizera elevar sua alegria, contentando-o ainda mais, talvez, do que uma adequada e encorajadora retribuição do olá o teria. Ainda assim, negou-se, orgulhoso, a acompanhar os familiares em sua refeição, declarando que tais pequenas ofensas lhe eram as mais graves.
Muito depois, o avô ao servir-se observaria, despontava no arenoso relevo do pote um farináceo sorriso, como aqueles que dedos delineiam na praia.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
"Kerrfing! Kerrfing! Amarre o alabastro! Pauling, azeite aqueles bulbos!" O olhar se arrasta agressivo, percorrendo enfileiradas cabeças suadas, oprimidas pelo silêncio. "Stanley, pederasta caolho! Onde está meu canudo!?"
Corcunda vai, corcunda vem. Reluz no breu cálido um cilindro, canudo mesmo. Vai de encontro ao capataz. Explode a ponta, preenchendo a sala com um efêmero clarão, inundando-a de um miasma polvóreo. Não era um canudo.
O silêncio se adensa, Stanley esfrega as axilas.
As cabeças hesitam, observam-se.
Outras axilas são coçadas.
Olhares se afilam.
Voltam-se à Stanley.
Este dá de ombros.
E tímido, sorri.
sábado, 27 de outubro de 2007
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
quinta-feira, 12 de julho de 2007
quarta-feira, 20 de junho de 2007
domingo, 10 de junho de 2007
O vetorial estertor de Parvati retinia no cosmo, pungente e sidéreo. Uns a ele atribuíam a ciranda dos astros, outros contradição às tradições que evocavam para assim convocar o síndico. E eu? Só desejava conserva-la em meus braços, mas seria impedido por aquela horda lanosa de ovelhas que se insinuava.
terça-feira, 29 de maio de 2007
quinta-feira, 17 de maio de 2007
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A Prudência de Csardas
Príncipe Solar: "Saiba, ó Csardás, que tua estirpe releva tanto quanto aquela senhora idosa oculta pelo cacto."
Csardas: “Então presenteie-me com doze ânforas ornadas e preenchidas com a mais cremosa gordura de leviatã e estamos conversados”
Príncipe Solar: “Até três diminutas e murchas cabeças de morcego embalsamadas, finamente dispostas em fila sobre uma bandeja de barro cru e circundadas por rubros recipientes contendo suas respectivas vísceras bestiais compondo uma delicada harmonia geométrica com uma borda listrada de pequenos intestinos entrelaçados e pigmentados com cupins imperiais seriam demasiado dignas diante de tua indecorosa presença.”
Csardas: “A qual dos cactos fazias referência?”
Príncipe Solar: “Mesmo a mera ausência de luz pálida e débil que tua forma odiosa projeta sobre minhas sacras sandálias insulta a nobre linhagem da Casa dos Filhos de Ur!”
Csardas: “Estás certo que aquela corcunda matrona não deveria estar tingindo seda ou labutando diante do fogo de alguma câmara de confeiteiros?”
Príncipe Solar: “Também ousas proferir impropérios acerca da organização de meu palácio? Quando veio livrar do pó as reentrâncias entre os azulejos desta sala ela teve seus velhos olhos ofuscados pela fulgurante radiância de minha aura real, e agora jaz ali em paralisado deslumbramento. Como um atestado singelo de minha infinita misericórdia eu permiti-lhe a honra de permanecer... Mas como se atreve! Tuas frivolidades pífias me desviaram da adequada enumeração de toda a miríade de ofensas provocadas pelo roçar de teus pés sobre esse piso sagrado!”
Csardas: “Por mais sensato que te pareça ainda acho inadequado que alguém porte uma zarabatana próximo à um chefe de estado, principalmente em se tratando de uma velha”
Príncipe Solar: “Até tua visão é torpe, ó patético ser? Não percebes que aquilo é o respaldo cilíndrico de um espanador? Agora abandone tuas covardes interrupções e enfrente minha ira verbal com o que resta de dignidade em tua carcaça!”
Csardas: “Ouça-me príncipe, eu lhe falo seriamente, aquela senhora está prestes a mirar-te com aquele toco de bambu.”
Príncipe Solar: “Mesmo minha paciência divina conhece limites Csardás! Eu não tolerarei outra...”
quinta-feira, 12 de abril de 2007
Recordo também de quando pequeno retornar de uma reunião familiar com meu pai. O pai dele estava conosco, e eu o adorava. Ainda não tinha idade para reverenciar uma figura com este estúpido respeito bajulante dos homens, que se perdem fleumaticamente em elogios. Era apenas uma sensação sincera de apreciação.
Um carro cujo interior parecia reduzir-se a medida que transcorriam as horas da viagem em meio a estradas de seca poeirência iluminadas por um sol impetuoso. Estradas reconhecidas mas invisíveis na memória senão por evocações imaginativas. Pois gravado em minhas lembranças resta apenas o cenário perturbador de um caos metálico de fios, vigas e bobinas, como que vísceras a digerir eletricidade, seu nome ecoando em minhas perguntas infantis: uma subestação. Curioso como eu aceitava a mera denominação, bastando ela ao pai que respondia a mim bastava também. Tudo estampado por um céu de entardecer desértico e férreo.
Se este é o cenário perpetuamente costurado à essa jornada por minhas recordações, a atmosfera seria aquela de infindáveis diálogos entre meu pai e o seu, que acompanhei com fascinada atenção enquanto um disco de Nina Simone se repetia pela terceira, quarta vez. Ancorando isso estava a disciplinada e oracular vigília de alguém que seria como uma terceira figura familiar, governanta de meu avô cujo silêncio era tão nobre quanto seus disfarçados cochilos.
Será que ela estava mesmo lá? Nunca mais deixei de escutar My Baby Just Cares For Me.
Abomino o escorrimento ao qual é compelida à memória. Temo algum dia apagar meu avô, acabo de viver quase metade de minha vida sem ele. Um dia ele me prometera levar a Paris para ouvir Nina Simone, se ela fosse porventura ressuscitada. Quem sabe eu o encontre em algum néter do além necrótico e lá eu finalmente a escute "ao vivo" ao seu lado.
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