sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

No anfiteatro circular do liceu de ciências naturais o sol vespertino escorre solene por dentre as valetas da clarabóia. Iluminando em cascata os alvéolos da cúpula decorados com fantásticas formas animais e as concêntricas arquibancadas de mármore, para enfim refletir nas vísceras expostas do diminuto cadáver que repousa recém-retalhado sobre uma imponente tabula na depressão central, os dardejos solares acabam por encontrar seu receptáculo ideal na alva penugem dum eloqüente bigode, que oscilante, faz-se o centro das atenções. Trata-se da distinção cosmética maior do então grão-mestre e titular da cadeira de Anatomia Comparada e cavaleiro ungido da Ordem de São Domingos, senhor Lemmuel Menard, que inclinado sobre seu objeto de estudo dá início, com um pigarro, à uma nova lição para os alunos circundantes.
Estes, finamente trajados em opulentos fraques de reluzente negrume que se interpõe à simplicidade das vestes castanhas do mestre senão pela amplitude da gola de babados –esta requerendo antes prestígio que pujança financeira para se ostentar, alinham-se às costas e flancos do recurvado tutor diante da pétrea mesa de operações. Percorrem com o olhar primeiro os longos fios da distinta pelagem facial professoral, seguindo a narinas finamente desenhadas que são sucedidas pelos aros reluzentes de um pequeno par de lentes, chegando por fim à afilada ponta do nariz que parece guiar ao desejado foco: um emaranhado colorido e odoroso de vesículas, bolsas e tubos gástricos, pontilhado aqui e lá por manchas sanguíneas.
Ao cessar um tanto tardio do murmurar de leviandades, o professor, não sem um sutil destôo de sobrancelhas em protesto, põe-se a desferir ágeis movimentos com um alongado utensílio enquanto profere:
“Observem esta incisão meus jovens físicos, como os senhores podem constatar, gnomos não dispõe de fígado. É mera ficção a infectar nossos sofistas."
A declaração quiçá bombástica, feita não sem um contido viés de soberba, quebra muitas expressões de tédio aristocrático, faz elevar afobadas incontáveis mãos e afunda a sala num revigorado mar de murmúrios. O já orgulhoso Sr. Menard, absorto em contemplativa degustação de sua constatação, volta a si quando uma mão pousa-lhe nos ombros. Não reconhece o ousado aluno inquisidor:
“Diga jovem.”
“Senhor professor, mas não é este o órgão que lhes seria robustecido para o processo de minerais? Como o fazem então?”
“Associar ao fígado inexistente esta qualidade lendária foi meramente um meio de perpetuar sua possibilidade meu jovem, até onde sei o mundo mineral e o animal não se conjugam em relações alimentares. A não ser que o senhor acredite na salamandra empalhada do seu tutor de Herpetologia.”
Mesmo o elegante insulto à taxidermia de outro prestigioso professor permanece inaudito ante o caos conjetural instaurado, e logo ouvem-se novas perguntas: “e o álcool? Como bebem?”, “aqueles gorrinhos cônicos existem mesmo?”, “porque ele é tão pequenino!?” cuja imbecilidade é perdoada com a privação de respostas, ainda que gradualmente saturando a paciência já parcimoniosa do senhor Menard. E da progressiva ruína dispersiva imposta à força de tumultos irrompe uma indagação que faz silenciar as demais vozes como nenhum gesto do grão-mestre conseguiria:
“E quanto a estes vasos rompidos no pericárdio professor?”
Por milímetros o bisturi não extirpa ao inerte gnomo um rim.
“Tratam-se de nódulos vestigiais, Senhor Errol”, profere o Sr. Menard, mirando o único rosto jocoso da multidão enquanto afasta as mãos trêmulas do cadáver de modo a poupar-lhe uma segunda investida involuntária.
Sondando célere e sutil o apoio da multidão, Errol Flint prossegue em sua inquisição com um sorriso:
“Eleve um pouco o expansor meu bom professor, ali, ateste para o ponto enegrecido.”
Anômalos lampejos iluminam a visagem de Lemmuel Menard, fixa em seu algoz. Dilata-se o fluir temporal nas pausas de inseguros respirares. O bisturi eleva-se no ar com a ferocidade de um sabre e o negro arco de alunos afasta-se em pisadelas ecoantes no assoalho marfim. Acuado, o exausto corpo verga-se para emular heroísmo enquanto ascende à mesa de operações, e evitando maiores danos ao gnomo, brade convicto “Jamais me pegareis com vida!” já rumando para uma sombria alcova. Reina exclusivo o roçar aveludado de robes e o ressoar de passadas a distância até o cessar da perplexidade.
Após uma flexão e um dedilhar preciso nas entranhas do defunto outro dos alunos conclui:
“Te enganaste, Errol, era mesmo um nódulo, veja, nem colorido há.”
“Pobre professor, então era um heresiarca por certo.”
Alguém ainda arrisca “Eram boas suas bulas, ainda assim”, e indiferente Errol emenda “Desculpem-me então pessoal, engano meu. Desperdicei outro gnomo!”, e em meio à gargalhadas que sobem pela abóbada do anfiteatro ainda lembra-se de pedir à um de seu séqüito de bajuladores que chamasse uma camareira para dar conta do corpo antes que aguçasse seu odor, afinal não haveria mais aula hoje.

2 comentários:

Julia disse...

Odeio ler seus textos e me sentir analfabeta.

j. disse...

tua escrita corre pomposa e divertida, adorei.