Quando, mero infante, golpeei o nariz de meu melhor amigo, e em meio a um silvo de sangue percebi o valor do copyright. Era por uma ídéia que meu jovem e então roliço punho ia de encontro à sua face. Ele declarava que era seu o Super Lobinho, e claro, eu não podia permitir-lhe tal ladroagem. O canino super-heróico saíra de minha mente por intermédio dos lápis de cera roídos que abundavam no maternal.
Recordo também de quando pequeno retornar de uma reunião familiar com meu pai. O pai dele estava conosco, e eu o adorava. Ainda não tinha idade para reverenciar uma figura com este estúpido respeito bajulante dos homens, que se perdem fleumaticamente em elogios. Era apenas uma sensação sincera de apreciação.
Um carro cujo interior parecia reduzir-se a medida que transcorriam as horas da viagem em meio a estradas de seca poeirência iluminadas por um sol impetuoso. Estradas reconhecidas mas invisíveis na memória senão por evocações imaginativas. Pois gravado em minhas lembranças resta apenas o cenário perturbador de um caos metálico de fios, vigas e bobinas, como que vísceras a digerir eletricidade, seu nome ecoando em minhas perguntas infantis: uma subestação. Curioso como eu aceitava a mera denominação, bastando ela ao pai que respondia a mim bastava também. Tudo estampado por um céu de entardecer desértico e férreo.
Se este é o cenário perpetuamente costurado à essa jornada por minhas recordações, a atmosfera seria aquela de infindáveis diálogos entre meu pai e o seu, que acompanhei com fascinada atenção enquanto um disco de Nina Simone se repetia pela terceira, quarta vez. Ancorando isso estava a disciplinada e oracular vigília de alguém que seria como uma terceira figura familiar, governanta de meu avô cujo silêncio era tão nobre quanto seus disfarçados cochilos.
Será que ela estava mesmo lá? Nunca mais deixei de escutar My Baby Just Cares For Me.
Abomino o escorrimento ao qual é compelida à memória. Temo algum dia apagar meu avô, acabo de viver quase metade de minha vida sem ele. Um dia ele me prometera levar a Paris para ouvir Nina Simone, se ela fosse porventura ressuscitada. Quem sabe eu o encontre em algum néter do além necrótico e lá eu finalmente a escute "ao vivo" ao seu lado.
Recordo também de quando pequeno retornar de uma reunião familiar com meu pai. O pai dele estava conosco, e eu o adorava. Ainda não tinha idade para reverenciar uma figura com este estúpido respeito bajulante dos homens, que se perdem fleumaticamente em elogios. Era apenas uma sensação sincera de apreciação.
Um carro cujo interior parecia reduzir-se a medida que transcorriam as horas da viagem em meio a estradas de seca poeirência iluminadas por um sol impetuoso. Estradas reconhecidas mas invisíveis na memória senão por evocações imaginativas. Pois gravado em minhas lembranças resta apenas o cenário perturbador de um caos metálico de fios, vigas e bobinas, como que vísceras a digerir eletricidade, seu nome ecoando em minhas perguntas infantis: uma subestação. Curioso como eu aceitava a mera denominação, bastando ela ao pai que respondia a mim bastava também. Tudo estampado por um céu de entardecer desértico e férreo.
Se este é o cenário perpetuamente costurado à essa jornada por minhas recordações, a atmosfera seria aquela de infindáveis diálogos entre meu pai e o seu, que acompanhei com fascinada atenção enquanto um disco de Nina Simone se repetia pela terceira, quarta vez. Ancorando isso estava a disciplinada e oracular vigília de alguém que seria como uma terceira figura familiar, governanta de meu avô cujo silêncio era tão nobre quanto seus disfarçados cochilos.
Será que ela estava mesmo lá? Nunca mais deixei de escutar My Baby Just Cares For Me.
Abomino o escorrimento ao qual é compelida à memória. Temo algum dia apagar meu avô, acabo de viver quase metade de minha vida sem ele. Um dia ele me prometera levar a Paris para ouvir Nina Simone, se ela fosse porventura ressuscitada. Quem sabe eu o encontre em algum néter do além necrótico e lá eu finalmente a escute "ao vivo" ao seu lado.
2 comentários:
Bruno, mesmo que você por ventura esqueça o rosto do teu avô, eu aposto que nunca esquecerás dos momentos que passaste com ele, e creio que é isso que importa. :)
Memórias são bem mais importantes que imagens. São muito mais reais...
Eu não gosto de elogiar, isso desinfla meu ego.
Porém, eis aqui mais um blog de um rapaz habilidoso com as palavras. Cada qual ao seu modo.
Ouvi dizer mas não tenho certeza, de que existe um neorônio para cada pessoa, acho isso estranho, mas soa bem.
Eu quando me esqueço facil dos rostos e das pessoas, por exemplo quando meu pai foi estava em são paulo por questões que ainda não sei bem porque. Eu começava a ter dificuldade de recrialo em minha mente, até o dia em que eu via uma foto dele ou ele aparecia um ou duas semanas.
hum...
bom,
ta ok, estou sem assunto e não sou bem em comentar esse tipo de coisa.
Pois bem, me vou.
Até
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